Um encontro virtual, uma sensação real.

De súbito

no espaço virtual aparecem duas letras,

um simples OI,

e o desejo real de me adicionar.

 

Quão fantástica e maravilhosa é essa tecnologia

que nos traz próximas e presentes

pessoas distantes e assaz desconhecidas

e que, por um ato imprevisível,

como as linhas do destino,

tornam-se eternas em nosso caminhar.

 

Não foi uma surpresa, em principio, o simples OI;

pois é dessa forma que ocorrem as interações

nesse novo e majestoso mundo virtual.

 

O que me causou muita surpresa

foi a intenção subjacente

e conseqüente a essas duas letras – o simples OI:

um firme e obstinado desejo de migrar para o mundo real.

 

Quem estaria por trás dos dois caracteres?

Que dedos o imprimiram na tela do computador?

 

São duas letras que aparecem em sequencia no teclado,

mas que podem definir futuros imprevisíveis,

ou até mesmo, inimagináveis.

 

Muito fácil escrever o que não sentimos,

quando estamos protegidos pela máscara dos espaços virtuais.

 

Muito fácil nos definirmos por avatares,

por personagens criados por nossa imaginação,

quando um simples endereço de IP nos liga ao nosso interlocutor.

 

Podemos ter o sexo que imaginamos,

administrar riquezas que não possuímos,

ostentar o poder que não detemos.

 

Não era esse o desejo do simples OI.

Primava por um espaço real,

impunha-nos um encontro presencial.

 

Investigar o dono do OI foi o passo subsequente.

 

Até se pode interagir no ambiente virtual sem muita cautela,

pois no máximo um vírus poderá aparecer em nossa tela.

 

Mas a migração para o mundo dos reais exige muita atenção,

pois a presença física nos expõe e nos fragiliza.

 

Um amplo sorriso em um rosto alongado,

cabelos fartos e negros, cútis clara e tenra,

dentes cintilantes e levemente pronunciados,

sobrancelhas espessas, olhos amendoados,

uma certa meiguice no olhar,

um perfil jovem, feminino e adocicado,

em uma mulher firme, segura e despojada.

 

Uma bela visão para olhos atentos e experimentados.

Uma inquietação diante de um cenário que se desenha, que se constrói.

 

A jovem tem um passado, possui uma história,

acalenta consigo o fruto da primeira paixão:

um largo sorriso, que a acompanha em várias imagens

e que prima por expor a falta de um ou dois dentes,

registro seguro da tenra idade que possui.

 

Um jovem menino, que com ações lépidas e fagueiras,

encanta e seduz a genitora presente.

Mãe contemporânea, dona de seu destino,

que nem sempre consegue estar ao seu lado,

mas que sabe valorizar profundamente

todos os momentos em que juntos estão.

 

Cabelos emaranhados, voz um pouco grave e solene,

nenhuma maquiagem a protegiam do sol da manhã.

Essa foi a primeira imagem sua

que obtive em movimento no ambiente virtual.

 

Que mulher ousaria se mostrar

de cara limpa e recém desperta,

no seu primeiro encontro,

mesmo que este

se fizesse por meio da tecnologia,

em um mundo virtual?

 

Não sei bem a razão até hoje,

ou melhor, hoje bem o sei,

é sua forma natural de ser e de agir,

mas decididamente,

a pureza, a singeleza e a simplicidade do olhar

me encantaram desde o primeiro momento

e me guiaram para o mundo dos reais.

 

O primeiro momento presencial se deu dentro de um carro,

uma troca de olhares e um forte e controlado desejo de beijar.

Algumas palavras, um restaurante, e o desejo se fez realizar.

 

Estávamos então embalados pelas suaves notas do encantamento.

O cheiro doce do desejo enche o espaço interior do veículo

e deixa em cada um de nós a forte vontade de um novo encontro.

 

O ambiente virtual se fazia cada vez mais intenso e presente na vida do casal

e mitigava um pouco o desejo de estar sempre juntos,

impossível na modernidade

e impraticável diante da realidade de cada um dos dois.

 

Mensagens trocadas, vídeo conferências,

A tecnologia trazia bem próximo um casal distante.

 

O ajustar das agendas se impunha de modo recorrente,

e encontros presenciais eram estabelecidos como meta pelos dois,

cada vez mais.

 

Quatro paredes, uma visão linda da cidade,

um lençol macio e cheiroso, muito carinho,

selaram o primeiro encontro com mais afeto dos dois.

 

Um encontro sem relógios, sem telefones.

Um encontro de sorrisos, um encontro de encantos.

Cabelos molhados, pele cheirosa,

Um ar cotidiano, recortes de uma vida a dois.

 

Eram as primeiras descobertas,

eram os primeiros experimentos,

era a construção conjunta de acertos

sem a preocupação de que erros ou barreiras

dificultasse o percurso dos dois,

ao longo de suas jornadas.

 

Há momentos em que inquietações e dúvidas

perseguem cada um dos dois e os angustiam.

 

As sombras do passado teimam em se fazer presentes,

em tentar ressuscitar mortos mal inumados,

em concorrer com um novo futuro, cada vez mais pungente,

que vai, dia após dia, se construindo, se solidificando.

 

O telefone toca de forma recorrente.

O passado prima em se fazer presente.

 

Mas tudo está posto, embora mal, se faz resolvido.

Não adianta a insistência e a perseverança,

o coração não bate mais como antigamente.

Um novo sangue flui pelas mesmas veias,

um novo horizonte se define após a curva

que o destino conferiu ao casal enamorado.

 

Não há mais razão para a insistência, não há mais motivação para a luta.

Não há mais competidores, não há mais contenda.

 

A esperança nutre as veias do que se vê derrotado.

O jogo da incerteza alimenta o desejo e enfraquece a razão.

 

Muitos bastiões ainda deverão de ser construídos,

muitas pontes terão ainda que ser erigidas,

para que as águas fluam perenes e as marés sejam tranquilas.

 

É um construir conjunto – um após outro dia,

um descobrir coletivo, um sonhar associado,

um ressurgir a cada manhã, após a incerteza do ocaso.

 

Um desejo alimentado pelas forças do coração.

Um sonhar acordado, um dormir despertado,

um viver emoldurado pela presença do parceiro.

 

Um regar cada dia, um alimentar cada instante,

de modo que o futuro se faça presente

em cada segundo vivido,

sem as sombras do passado,

sem as marcas inclementes do tempo,

sem a diferenças forjadas pela idade.

 

Um beijo com muito carinho

e a certeza que o presente é reflexo do passado,

e que o futuro se constrói a cada dia

com as pequenas e efetivas ações

do viver cotidiano.

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