Pré-fabricação e industrialização – construindo o futuro da produção de edifícios e de cidades em solo brasileiro.

Habitar é uma necessidade básica do ser humano, por essa razão, desde o período Paleolítico, o homem busca nos altos das árvores, como os primatas, ou nas cavernas naturais, como os felinos, cumprir essa demanda natural da raça humana.  Com o passar das eras, já no período Neolítico, tempo em que se tornou sedentário e desenvolveu tecnologia para o cultivo das plantas e destreza para a doma e criação de animais, começou a se utilizar dos materiais existentes em seu entorno para a produção das edificações.  Foi assim que empilhou blocos de gelo na calota congelada do globo terrestre e produziu os iglus, morada primitiva dos habitantes do extremo norte, que amontoou conchas em terras brasileiras e fez os sambaquis, marco nacional dos primeiros habitantes, que colocou pedra sobre pedra em território africano e produziu as pirâmides, eternizando para as gerações futuras a notoriedade dos monarcas mortos, que comprimiu o solo argiloso das terras banhadas pelos rios Tigre e Eufrates e fez o adobe, principio do tijolo utilizado ainda hoje na grande maioria das construções. Assim nascia as proto-cidades, geradas nas proximidades das Necrópoles, morada eterna para os mortos, uma outra necessidade básica do ser humano de divinizar os fenômenos naturais que  não consegue explicar de modo plausível.

Ainda são possíveis de serem vistas construções pré-históricas, não tão distantes dos centros urbanos contemporâneos. A taipa de sopapo, tão presente nas periferias das cidades cearenses, é um bom exemplo desse modo de produção artesanal de origem longínqua. As palafitas das regiões alagadas do sudeste brasileiro, ou ainda as cidades flutuantes, uma variação dessa forma de construir o abrigo do homem sobre estacas de madeira, encontradas na região amazônica, são outros exemplos de modos de produção de edifícios de maneira artesanal e de tecnologia pré-histórica. Essa produção vernacular do espaço urbano, principalmente após a revolução industrial, e de modo especial com o fim das grandes guerras, que produziram destruição em massa principalmente em solo europeu, gerando a necessidade imediata de recomposição e reconstrução das edificações e das cidades, teve que ser modificada de modo a se ajustar a uma nova demanda presente, a produção do espaço urbano em economia de escala – volume e velocidade. A idealização de componentes pré-fabricados se impunha como fundamental para o atendimento dessa nova demanda. 

Pode-se entender, de um modo mais abrangente, o tijolo como um componente pré-fabricado, pois esse é produzido fora do canteiro de obras e o somatório de vários deles determina o erigir das paredes. De fato, o princípio da pré-fabricação é esse, mas a demanda é muito maior que a que possa ser atendida por um pedreiro, na sua lida diária de empilhar tijolos, separados por argamassa colante. Para isso, a mente criativa do engenho humano tem desenvolvido, principalmente após a década de sessenta do século passado, componentes pré-fabricados de maiores dimensões que atendam de um modo mais rápido a demanda crescente por produção de espaços edificados. Começam a surgir nos mercados dos diversos países, os tijolos de cimento com medidas bem maiores que os de diatomita ou os cerâmicos. Uma maior dimensão do componente construtivo gera uma maior rapidez na produção do edifício, contribuindo para a rentabilidade e o atendimento mais imediato das necessidades humanas.  Nessa mesma linha de raciocínio, começam a surgir as placas e as lajes pré-moldadas, até culminar com a produção de toda uma unidade habitacional, comercial ou de serviço totalmente produzida fora do canteiro, transportada depois para esse e lá empilhada, utilizando para isso,  não mais a mão humana, mas equipamentos especialmente desenvolvidos para esse fim.

A pré-fabricação não envolve simplesmente a produção dos componentes construtivos em série, mas o desenvolvimento de equipamentos para facilitar a sua aposição em obra, como também a melhor qualificação da mão de obra para a utilização desses equipamentos e das novas ferramentas desenvolvidas para o aumento da produtividade; assim como o aprimoramento dos instrumentos de gestão de canteiro e da mão de obra. É uma questão que envolve investimento de capital, desenvolvimento de tecnologia e capacitação de mão de obra. É, portanto, vetor de exclusão social, se não for bem trabalhada. Por essa razão, o mundo apresenta vários níveis de desenvolvimento. Os Estados Unidos, os países nórdicos e alguns outros da Comunidade Européia, como a Alemanha, já conseguiram chegar à sua fase mais avançada de produção de edifícios, a industrialização. Nesses países se vê a presença maciça de equipamentos, a começar pela grua que é instalada ao tempo em que se monta o canteiro de obras. Se observa a utilização de componentes pré-fabricados de grandes dimensões, movimentados pelas gruas. Observa-se ainda um planejamento rigoroso de todas as atividades, uma compatibilização plena dos projetos e dos diversos componentes construtivos, uma capacitação e uma qualificação da mão da obra empregada, além da utilização de equipamentos individuais e até pequenos veículos operacionais, que aceleram o processo de produção dos edifícios. Para isso se tornar realidade, não é só necessário que a empresa construtora esteja adequada a essa maneira de produzir bens imóveis, mas todas as empresas terceirizadas, e essa é a grande chave de todo o processo, a construtora, como as grandes montadoras de automóveis, são responsáveis pela gestão das diversas empresas que, de modo a minimizar sobras e perdas, conseguem garantir produtividade com qualidade, se responsabilizando pelo desenvolvimento de frações autônomas das necessárias para o fechamento final do espaço edificado.  Profissionais e operários também têm de estar alinhados com esse modo de pensar a produção da cidade contemporânea.

Produção em série de edificações na periferia de Madri

Antes da fase da industrialização, observa-se que algumas construtoras adotam a pré-fabricação aberta ou fechada. Na pré-fabricação aberta as empresas constroem os seus prédios a partir de componentes construtivos apresentados em catálogos. Essa é a realidade observada em países da Comunidade Européia como a Espanha e Portugal. Para isso, não nó as construtoras devem estar aparelhadas, mas todo o mercado fornecedor de componentes deve seguir a diretrizes prefixadas e a uma normalização de orientação, principalmente para a compatibilização e a coordenação modular. No Brasil e no Ceará já pode ser observada a pré-fabricação fechada, onde empresas fornecedoras de pré-moldados produzem os seus componentes a partir de demandas específicas. Aqui no Brasil, e de forma semelhante no Ceará, há ainda uma quantidade excessiva de mão de obra pouco qualificada, um investimento, por parte dos empreendedores e empresas, ainda pequeno em equipamentos, uma normalização ainda pifia de procedimentos e da produção dos componentes e uma conduta, por parte da grande maioria da população brasileira, ainda não direcionada para o planejamento.

Um grande desafio que se apresenta com a edificação massiva com componentes construtivos produzidos em série e com o aumento contínuo das densidades populacionais nos espaços construídos, é a avaliação dos impactos produzidos por tais ações na natureza e a conseqüente diminuição da qualidade de vida no globo terrestre. Edificar significa substituir. Trocar uma paisagem natural por uma cultural, produzida pela mente criativa do ser humano. Com o adensamento contínuo e progressivo do globo terrestre surgem as correntes ideológicas que envolvem a sustentabilidade. Uma grande questão se impõe: como se maximizar o processo de produção dos edifícios e das cidades, utilizando-se de enernegias ando-se de gias renováveis, minimizando custos, recursos naturais e desperdícios, possibilitando a economia das energias não-renováveis e a reutilização futura dos componentes construtivos. São os edifícios verdes, ecologicamente corretos. Um compromisso social das empresas construtoras e dos empreendedores com a natureza, e por via de conseqüência, com toda a humanidade. No caso brasileiro e, em especial, no cearense, como administrar esse aumento de tecnologia e a substituição da mão de obra por equipamentos, garantindo sustentabilidade também para as composições familiares que apresentam mão de obra menos qualificada. Como garantir qualidade de vida, de igual forma, para as populações menos abastadas, e que no caso do Brasil, representam cifras superiores à 80% da população residente.

Pesquisar, pensar, estudar, capacitar são vocábulos que se apresentam na direção da solução do problema. Terão que ser desenvolvidas, através das universidades e dos centros de pesquisa, tecnologias autóctones, que tenham como base a realidade nacional e a demanda brasileira, ou até mesmo regional, nesse caso de um país de dimensões continentais. Urge uma conscientização de toda a população e dos agentes envolvidos com a produção do espaço urbano,  para o desenvolvimento de políticas e posturas que priorizem o atendimento das demandas da população, dentro de uma linha de segmentação de mercado. Se cada pessoa nasce com características singulares e necessidades particulares, não há porquê supri-la com bens produzidos em série sem a observância das especificidades individuais. Se hoje o desenho industrial, com seus bens de serventia diária e custos módicos,  já são desenvolvidos de modo a atender a essas características singulares da população, razão maior para a indústria da construção civil seguir o mesmo caminho, já que esta produz bens, que para a grande maioria da população brasileira, representa investimentos que mobilizam toda uma vida.

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