Com os olhos na Copa, planejando as ações no espaço urbano.

O homem é um ser gregário, por essa razão necessita conviver e comunicar-se com seus semelhantes, trocando com eles experiências, conhecimentos, afetos e bens. Desde o Paleolítico se juntou em grupos e criou as suas cidades, armazenando os víveres oriundos de suas colheitas e protegendo os seus pertences em cidadelas. Com o tempo, desenvolveu formas de escambo, de modo a viabilizar a sua subsistência e institucionalizou grandes áreas públicas urbanas, onde periodicamente fazia as suas trocas. Era assim criada a Feira, que até hoje está presente, semanalmente, nas pequenas cidades do interior desse país continental. O material não comercializado pelos produtores, no tempo da Idade Média, era adquirido pelos burgueses, habitantes dos burgos, aglomerações urbanas, que se concentravam principalmente nas portas das cidades, última oportunidade do produtor não retornar para sua morada com os bens ofertados, e portanto, a venda se fazia por um menor preço. Os produtos adquiridos pelos burgueses, comerciantes, eram negociados com os habitantes da cidadela nos outros dias em que não havia feira. Estavam, com essa conduta, institucionalizados os Mercados e os dias da segunda feira, da terça feira, da quarta feira, e por ai em diante, até se chegar ao Sábado, do hebreu shabbath, dia de repouso para algumas culturas, em que o ato do comércio não se fazia presente ou não era permitido. O Domingo iniciava a semana, para essas civilizações, e era o dia em que ocorria a grande e verdadeira feira, que integrava produtores e consumidores finais.   

As cerimônias e os festejos, também acompanham o homem desde o tempo em que não havia registro escrito dos feitos dos grupos sociais. Pinturas rupestres atestam essa tese. As vias largas descobertas em ruínas de antigas cidades da Mesopotâmia ou de outros lugares espalhados no globo terrestre, ou nas que se encontram ainda mantidas pela ação de preservação das civilizações posteriores, corroboram com essa ilação e atestam a presença de aglomerações e cortejos cerimoniais. A Grécia, na história antiga, foi palco dos jogos olímpicos, uma forma de catalisar a energia bélica presente nos guerreiros das cidades-estados. Os Romanos, por sua vez, transformaram essas ações desportivas em grandes espetáculos, conferindo panis et circenses aos seus concidadãos. A prática de esportes transcendia da sua função primeira e principal de lazer individual, ou coletivo, para se transformar em grandes espetáculos que passam a atrair multidões, gerando paixões coletivas e movimentos de significativas cifras financeiras e dividendos políticos.

Coliseu de Roma - vista interna

A globalização passou a adotar essas paixões como oportunidades de negócio. Criaram campeonatos, jogos olímpicos, para-olimpíadas, torneios e formas de competições variadas alusivas, inclusive, as estações do ano. As marcas comerciais são divulgadas ao patrocinar os eventos e as bilheterias passam a remunerar os atletas, que pouco a pouco, perdem os seus status de amadores e se profissionalizam, até contratando empresários, intermediários diretos com os patrocinadores e que viabilizam as participações dos atletas em eventos e em peças publicitárias. As horas das televisões, com seus espaços comerciais, chegam até a interferir no horário e andamento dos espetáculos. O esporte se torna um comércio e os ginásios, os estádios, as arenas, os ringues, as quadras e os parques desportivos, os seus templos de realização e venda.

A profissionalização dos atletas e dos espetáculos passa a exigir dos municípios, que os recebem, profissionalização. Uma competição esportiva que envolve países dos cinco continentes demanda toda uma preparação das cidades sede e um trabalho de conscientização da população local para a amplitude, os impactos e as compensações futuras. A cidade, que já possui as suas demandas naturais, por ser compartilhada por todos que nela habitam, e que nem sempre são bem atendidas, pelas limitações de recursos e pela educação de seu povo, passa a receber o incremento de uma população flutuante significativa, em função do evento. Pessoas que chegam através do aeroporto, da rodoviária e das rodovias de acesso, exigindo desses espaços e das vias uma melhor gestão e organização da infraestrutura existente. São indivíduos que utilizam outros idiomas para a comunicação no seu cotidiano e que nem sempre dominam o português. São grupos que irão chegar de forma concentrada e festiva. Visitantes que irão se deslocar desses pontos de acesso aos meios de hospedagem e necessitarão, além de vias convenientemente pavimentadas e conservadas, de uma sinalização que os oriente no transitar na malha urbana. 

Os meios de hospedagem são uma outra demanda real, tanto no que tange ao volume quanto a conservação, acesso e acessibilidade. Os espaços devem ser projetados para todos, com diferentes biotipos e limitações de movimentos. Cegos, surdos, mudos, cadeirantes, idosos, gestantes, obesos, todos devem ter a possibilidade de utilizar e se deslocar nos espaços públicos e edificações com a mesma qualidade dos que possuem os seus órgãos dos sentidos e componentes corporais em pleno funcionamento. Não é só uma questão de responsabilidade sobre as limitações físicas das pessoas, mas uma demanda muito mais ampla e que transcende a vertente tangível e atinge o aspecto psicológico da inclusão social. Todos que habitam em uma cidade e partilham edifícios têm o direito de perceber os espaços urbanos, os mobiliários e as construções planejadas para atender as suas demandas específicas. O acesso e a utilização dos meios de transporte público deve tanto atender a demanda da população residente, com toda a pluralidade já exposta, como também acomodar dignamente esse incremento temporário de população. A escala do pedestre deve ser também valorizada nos espaços urbanos. Passeios que têm pavimentos descontínuos, estreitos, irregulares, às vezes mal conservados, limitam, impedem ou dificultam a sua utilização.

Os espaços dedicados à gastronomia e as compras devem também ser repensados de modo a atender a essa população flutuante e festiva. Torcidas bebem, comem, compram, fazem ruído. Além da qualificação de toda a mão de obra necessária ao atendimento dos visitantes e residentes, os espaços devem ser pensados de modo a acomodar seus usuários e impedir que ruídos incomodem os residentes do entorno. Algumas novas unidades espaciais devem também ser pensadas para os espaços coletivos, em função das novas condutas da sociedade contemporânea, como os próprios sanitários, que além de acomodar os dois sexos, devem ser pensados de modo a atender cadeirantes e pessoas que têm de ser assistidas, nas suas necessidades básicas, por familiares ou cuidadores de sexo oposto. A devida dimensão dos espaços e do mobiliário, respeitando os preceitos da ergonomia, conferirá maior qualidade de uso aos seus ocupantes.

A segurança é uma outra tônica da atualidade, tanto no que tange aos ilícitos vivenciados pelas populações residentes, como os atentados que podem ocorrer em eventos que polarizam e concentram, também, culturas mais agressivas e belicosas.  Rotas prioritárias devem ser pensadas para esse fim, como também para atender aos sistemas de emergência. Cordões de isolamento dos espaços dedicados à hospedagem e treinamento dos atletas, assim como os destinados aos espetáculos e as competições devem ser planejados. Heliportos e helipontos, para atender à segurança, emergência, comunicação e transporte pessoal, devem ser distribuídos pelo espaço urbano, assim como o gerenciamento e monitoramento de todo o espaço aéreo. As demandas por energia, telefonia, água e esgoto se acentuam e deve ser, de antemão, pensada essa sobrecarga no comprometimento da infraestrutura urbana já existente. O apoio à imprensa falada, escrita e televisiva é um capítulo a parte de todo esse processo, pois irá gerar espaços exclusivos para a sua atuação junto às praças de esporte, como próximo aos locais de hospedagem e treinamento dos atletas. Deve ser também pensado o deslocamento desses profissionais, das delegações de atletas e dos torcedores. A previsão de áreas para o estacionamento de carros, ônibus, carretas e táxi; além dos próprios deslocamentos desses veículos na malha urbana, incrementando ainda mais o tráfego caótico já compartilhado pelos cidadãos, deve naturalmente fazer parte de todo o planejamento de ações que antecedem a copa e que a viabilizarão.

A fase de execução de todas as obras necessárias aos ajustes dos espaços urbanos, das edificações desportivas, de treinamento, hospedagem, alimentação, da infraestrutura, do sistema viário, de transporte urbano, certamente acarretará um grande transtorno na cidade, além dos isolamentos e controles que serão necessários para garantir a segurança no período do evento. Para isso a população deve estar consciente e de fato vislumbrar que todas essas ações são positivas para o período da copa e gerará dividendos para os dias posteriores. Para tanto, deverá haver transparência por parte dos gestores públicos com relação aos investimentos, transtornos e ganhos futuros. É fundamental que se pense a cidade não só para o período do evento e para a população visitante, mas para os residentes que irão padecer dos contratempos objetivando dividendos futuros proveitosos. A Copa não é só um evento de alegria e comemoração, mas fundamentalmente de planejamento e de muito trabalho para todos os que têm a responsabilidade de sediar um evento tão importante e tão impactante para a imagem da cidade. É fundamental que o cidadão tenha plena consciência que a cidade, o estado e o país, não é só responsabilidade do prefeito, do governador ou do presidente, respeitando os diversos níveis da hierarquia, mas de todos os que partilham e constroem o convívio social no espaço urbano.

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